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Causos da Bola - Um ídolo que se perdeu na noite

Um ídolo que se perdeu na noite

Revista Placar

Miséria e solidão: estas duas palavras definem bem o fim de um dos melhores laterais esquerdo do futebol brasileiro. Desgraça e tragédia: este destino ameaça mais um desses homens que um dia dormiram ídolos e acordaram esquecidos. Esta é a história de um personagem de mil caras. Na bola, agressivo. No jogo de cartas, sua grande paixão, calculista, sempre a espera do blefe. No jogo da vida, um eterno vencedor, pelo menos nisso, ele acreditava, por isso apostou tudo de uma só vez. Estamos falando de Marco Antônio Feliciano, lateral esquerdo campeão do mundo em 1970 e que defendeu os grandes clubes do Rio de Janeiro. Ele carrega sobre os ombros sérias e severas acusações. Jamais dormiu antes das cinco da manhã, Rei do samba e das boates de strip-tease, fumante inveterado, bebedor de uísque e cuba libre, mau negociante, recordistas de atraso em treinos, dono da maior coleção de óculos escuro do Rio de Janeiro, seu disfarce oficial depois das noites passadas em claro. Enfim, um anti-atleta salvo pela técnica.

Fama não lhe faltava e ele aceitava como verdadeiras muitas das acusações. Era fácil demais notar naquele rosto de olheiras, naquelas mãos sempre com um cigarro fumegando, naqueles carros do ano, que algo não ia bem. Em campo, ajudado pelo biótipo, Marco Antônio dava conta do recado. Fora, dava conta de si mesmo. Seu roteiro era por demais conhecido: uma passadinha pelo Pavão Azul, velho boteco da Rua Hilário de Gouveia, em Copacabana. Depois uma romaria pelas boates de strip-tease do Leme. Mulheres jamais lhe faltaram, os amigos aumentavam dia a dia e a noite era curta para tantos embalos.

E como treinar ? Como chegar cedo e bem disposto no clube ? Aquela hora, os amigos dormiam. E com dinheiro no bolso, a conta era sempre de Marco Antônio. Mas havia outro amigo “pedra noventa”, desses que não falham: Cafuringa, ponta direita que na sua época desfilava pelas ruas do Rio de Mercedes e, quando largou o futebol, passou a andar de ônibus. Muitas vezes, o supervisor do Fluminense, pegava Marcos Antônio nas mesas do Carioca, uma casa de jogo. Ele era a própria imagem do vicio. O lateral foi ruim para ele mesmo. Levou uma vida desregrada e no fim de carreira, sem dinheiro, sem amigos e até, sem a própria vontade de viver. Marco Antônio foi um craque que acabou como muitos outros grandes craques: esquecido, pobre, angustiado e solitário. Dos jogos de cartas, dos negócios malfeitos, das farras nas boates, sobrou um homem só e falido.

Museu dos Esportes

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